terça-feira, 28 de junho de 2016

Existe arte na despedida?

Faz anos que escuto as pessoas dizendo que sabemos quando iremos morrer, de uma forma ou de outra. Pode ser uma placa casual, uma etiqueta, uma ligação inesperada, feita ou recebida. Verdade é que o mundo está cheio de profetas, sensitivos de seus sentimentos e dos outros, só que ninguém os conhece, nem mesmo eles se conhecem.

Ao longo da história, muitas músicas foram escritas e, posteriormente, tachadas como epitáfios, despedidas, profecias e coisas desse gênero. E algumas delas realmente soam como tal.

Nyro e seu primeiro disco
Em 1967, então com 19 anos, Laura Nyro lançava seu primeiro disco More than a new Discovery. A essa época, a cantora já possuía certo renome como compositora, tendo vendido, dois anos antes, a sua And when I die - gravada no disco citado - por 5000US$ ao trio Peter, Paul and Mary.

Como dito, se as pessoas se despedem abruptamente quando sabem de sua morte, então Laura adiantou em anos o seu epitáfio. Em versos certeiros, a cantora dispara: “And when I die, and when I'm gone/ there'll be, one child born, in this world/ to carry on, to carry on”. A canção, apesar de seu tom carregado e alusivo à morte, fala mesmo é da aparente futilidade da vida, em como perdemos nosso tempo atrás de coisas vãs, mas no final nos despedimos, para que assim alguém possa chegar.

Laura morreu aos 49 anos, em 1997, em decorrência de um câncer, e com uma carreira enfestada de músicas instropectivas. And When I Die, depois de todos esses anos, continua sendo a grande despedida da cantora, apesar da música só ter explodido mesmo pela gravação do Blood, Sweat and Tears, também em 1967, tendo a cantora, à época, um relacionamento com o baixista, Jimmy Fielder.     
A capixaba Nara Leão nunca foi letrista, tendo raras incursões nesse meio, mas nem por isso deixa de entrar nessa discussão. Em 1989, aos 47 anos, a chamada musa da Bossa Nova morrera devido a um câncer (mais uma) que se agravara muito à época. No mesmo ano, em outubro, fora lançado, já postumamente, o disco My Foolish Heart. Nele, a cantora mais uma vez, assim como no anterior - Meus Anos Dourados - fez versões de uma série de músicas do cancioneiro norte americano dos anos 50, como Night and Day, But not for me e a faixa título: My foolish...

Nara, antes do adeus
Com a voz já debilitada pela doença, Nara gravou as músicas com enorme esforço. A última foi My Foolish Heart, com seus versos pontuais de despedida: “Não sei para onde vou/ Não sei se vou ou vou ficar/ Pensei: não quero mais pensar/ Cansei de esperar/ Agora nem sei mais o que querer/ E a noite não tarda a nascer/ Descansa, coração/ E bate em paz.” A letra, versão de Nelson Motta, que levou o nome de Descansa, Coração, foi aparentemente a última coisa gravada pela cantora.

Aqui, muito mais do que em Laura Nyro, temos a constatação do fim e sua inexorável força. Ao dizer isso, Nara estava atestando (inconscientemente?) a sua despedida.

Jones, o homem de carne, em sua última encenação
Um caso bem recente foi o de David Bowie e seu epitáfio em forma de clipe: “Look up here, I'm in heaven/ I've got scars that can't be seen/ I've got drama, can't be stolen/ Everybody knows me now.” O clipe de Lazarus, do disco Black Star, mostra um Bowie deitado numa cama, com os olhos vendados e uma aparência sôfrega. Ali, apesar de continuar a sua saga de atuar como a uma personagem, encontramos o David Jones de carne, osso e (pasmem) câncer; “Oh, I´ll be free, Just like that blue bird", canta um homem já cansado, que sai de sua vida fantasiosa para entrar no armário da morte, a escuridão do limbo desconhecido; “Ain't that just like me?”, diz, fechando o enigma de sua vida.


Aqui no Brasil, temos também o emblemático caso de Renato Russo e sua A Via Láctea, canção de despedida - difícil encontrar outra definição - assim como boa parte do disco A Tempestade, de 1996. Naquele momento, tudo já estava perdido, e a certeza da morte já era contundente, em versos como: “Queria ser como os outros/ E rir das desgraças da vida/ Ou fingir estar sempre bem/ Ver a leveza das coisas com humor/ Mas não me diga isso!”. Assim como Nara, Renato morrerá no mesmo ano de lançamento do disco, por complicações causadas pela AIDS, doença que havia contraído sete anos antes.

Para fechar, lembremos de Show Must Go On, do Queen e os boatos intermináveis em torno de sua gravação. Dizem que Freddie Mercury, já arrasado pela AIDS, chegou ao estúdio, escutou as bases de Brian May, deu uma enorme golada numa garrafa de Vodka e gravou a música, de uma só vez, num único take. Sem pausas nem erros. A canção fora composta pelo guitarrista como uma homenagem a Freddie, e mesmo assim com ressalvas por parte de May, que não tinha certeza se o vocalista conseguiria alcançar as notas altas as quais a música pedia. E a gravação está aí pra nos mostrar que sim. 

Bom, a lista de despedidas é longa, algumas expressas, outras veladas e mais um monte inventada por quem quer dar tal definição. Nesse pacote, podemos citar George Harrison com Stuck Inside a Cloud, Warren Zevon com Keep Me in Your Heart ou mesmo Johnny Cash e sua regravação de Hurt, do Nine Inch Nails.


Boas Batidas, enquanto existirem...    

terça-feira, 8 de março de 2016

Costela trincada

  Hoje é um suposto dia de celebração, mas não. A Mulher do Fim do Mundo ainda habita o nosso cotidiano, aquele campo aberto com seus cantos escuros, e prantos, e medo, e dor. Elza Soares disse e viveu muito mais do que eu possa ousar escrever, mas ainda sim escrevo e parabenizo essa cantora, não por ser mulher, mas pela postura, humana.

  Não irei parabenizar as duas jovens mortas recentemente no Equador. Não darei rosas à presidente de meu país, massacrada em estado de graça por toda a nossa população masculina, e mesmo feminina. Não direi parabéns àquelas vítimas diárias do regime islâmico totalitarista, nem mesmo às meninas que tem as suas genitálias dilaceradas em procedimentos seculares em países africanos.

  Hoje eu não quero comprar flores, nem perfumes e roupas. Hoje não quero dizer meus parabéns às meninas usadas como escambo nas estradas tristes e concretas do Brasil, ou mesmo àquelas pequeninas que servem de boneca sexual para milionários europeus e asiáticos. Não quero, e nem irei, cumprimentar Malala Yousafzai,   

  Não importa de onde vem essa data, se de um incêndio maligno, de comícios e passeatas russas, americanas, enfim. Não farei discurso, não alardearei sobre as mulheres.

  Não pedirei um minuto de atenção para os homens indianos e seus estupros diários, costumeiros e lícitos. Não falarei aos cearenses sobre o seu índice maior de feminicídio. Não lembrarei aos homens de bem sobre a sua sexualização do amamentar. Não discutirei com as moças, senhoras e idosas sobre a suposta obrigação de amar o filho, amar o matrimônio, amar a vida de mãe, de esposa.

  No decorrer de hoje eu não irei parabenizar ninguém, não direi nem mesmo obrigado. Não falarei àquelas mulheres encarceradas socialmente, por terem na sua condição de mãe cometido um crime inafiançável. Não pedirei aos órgãos religiosos que abdiquem de seus textos bafientos e eivados de violência à mulher, a violência não física, mas subserviente, silenciosa e maligna.

  Não direi obrigado às mulheres que acordam cedo e arrumam a casa, fazem o café, arrumam os filhos, levam-nos à escola, vão para o trabalho, saem e vão estudar, voltam e vão repetir as mesmas ações da manhã. Fazem a janta, banham os filhos, botam-nos para dormir e que depois, quando já passou tempo demais, precisam ainda repetir a mesma cena.

  Hoje não desejo congratular as mulheres e moças e senhoras e idosas por terem nascido com o falso dom maternal, de gerar vidas, de levar tapas, cantadas, apertões, beliscadas, socos, pontapés, de receberem lisonjeadas palavras de amor, de lascívia e sexo explícito. Não farei menção ao (não) direito do aborto, à obrigação das saias e maquiagens e cabelos sedosos e esmaltes e lingeries vermelhas, pretas ou lilases.

  Não falarei de todas as lutas por espaço igual, direito igual, sonho igual. Do direito aos decotes e saias curtas num dia quente, sem que isso seja um convite ao sexo; do direito de não cruzar as pernas, sem que isso seja um convite ao sexo; do direito de andar sem sutiã, sem que isso seja um convite ao sexo; do direito ao próprio sexo, sem que isso seja um convite ao estupro.

  Não direi obrigado às menininhas, aquelas que querem um boneco, uma nave, usar cabelo curto; não querem se vestir de princesa, e não querem sonhar com um castelo e um príncipe galante e fabricado.
Não lembrarei das famosas frases sobre o lugar da mulher, o dever da mulher, o direito da mulher, o espaço da mulher, a vontade da mulher. Não pedirei desculpas à vocês por terem feito (no másculo teatro da vida), por todos esses anos, o papel de sexo frágil, assustada, dependente, carente, traidora, passiva, infiel, subalterna.

  Não, não, não.

  Não há desculpas nem celebração que cure o mal causado pelo homem, macho, viril e irracional às mulheres. Não há data nem apagador que oblitere todos esses séculos de perseguição, assassinato e depressão presenteados às mulheres.

  Não, não, não.

  Hoje não tem parabéns, hoje não tem flores nem vestidos, não tem sapatos, bolsas, maquiagens, nada. Hoje é mais um dia para celebrar a vergonha, o nojo, o asco muscular que cobre nossos ossos culpados. É mais um dia para nos despirmos dessa casaca dura, misógina e pétrea chamada machismo, é mais um dia para nos ajoelharmos e recebermos séculos de chibatas e açoites pelo mau domínio do poder a nós delegado pela força, não merecimento, não dádiva.

  Hoje é mais um dia, não apenas o dia, de dizer lute, seja, faça, relute, queira, ame, transe, pense, repense, reclame, refaça, duvide. Não há verbos feitos somente às mulheres, mas verbos. Conjugá-los vai além de um gênero. Não sei quantas mulheres padeceram enquanto escrevi isto, mas sei que morri, e morro, a cada uma dessas perdas humanas. Pois é isso o que somos, humanos.     

  Humanos com costelas, com desejos, com vidas e virtudes. Mas em virtude da vida que não desejaram, por terem vindo da bíblica costela, as mulheres padecem de nós. Se preciso parabenizar alguém no dia de hoje, esse alguém é o macho, pelo dom supremo da aniquilação. 

  Boa Batidas, ao som de Elza Soares



segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Não preciso dizer

Não vou me alongar sobre o legado de Bowie, já está bem documentado. Deixo aqui as mensagens subliminares, e casuais, dos títulos nas lombadas.

Sem mais.


quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Menos rosas e mais armas

Izzy e Steven, marcas de um passado
Volta, vem viver outra vez ao meu lado, não consigo...

Muitos anos depois dessa pérola de Lupicínio, o seu tema continua ainda em alta: a eterna volta. Nesse caso, ressalta-se, a volta das bandas.

Recentemente, foram anunciados dois shows do Guns´n´Roses no festival Coachella, previstos para os dias 16 e 23 de abril próximo. Até aí, nenhuma novidade. O que pega mesmo, e isso é realmente inusitado, é que o show reunirá no palco, depois de longos 23 anos, Axl, Duff e Slash juntos.

Em 1993, quando o Guns se perdeu, a banda era considerada um fenômeno imbatível. Arenas lotadas, vendas frenéticas, boas músicas e um intenso choque entre seus integrantes, entenda como drogas, ego, empresários, muita grana e mais droga e empresários e ego. Cabe lembrar que já nessa época o grupo não era mais o quinteto clássico, que gravou, incrível!!!, o único disco fantástico na escassa discografia da banda. Além dos três integrantes já citados, ainda contavam com Izzy Stralin e Steven Adler.

O gesto de mil palavras?
Aí é que entra a questão da volta. Até o presente momento, somente os três integrantes primeiramente citados estarão lá, o que tem causado uma enxurrada de críticas e iras por parte de fãs, principalmente.

Afinal de contas, o que, quanto vale a pena a tal reunião da formação clássica, ou formação original? E aqui eu me refiro a todas as bandas, não apenas ao quinteto norte-americano.

Em 2011, Ozzy anunciou que reuniria o Black Sabbath original para um disco de inéditas e uma turnê mundial. A notícia causou grande alvoroço, como era de se esperar. O problema foi que o baterista Bill Ward, por divergências até hoje estranhas – terá sido apenas dinheiro mesmo? – pulou do projeto, sendo substituído por Brad Wilki no disco, e por Tommy Clufetos na turnê.

Obviamente que houve grande chiado das pessoas, dizendo que aquilo não era o Black Sabbath, pois não tinha o baterista original. Logo eles, que tiveram tão poucas formações ao longo das décadas...
O Van Halen é outra banda que sofre com isso. Sai Hagar, entra Dave, que sai para entrar Hagar, mas hoje, por enquanto, está com Dave, e por aí vai.

A pergunta principal aqui é: quem é quem na caracterização das bandas?
O Whistesnake clássico é o com a dupla Micky Mood e Bernie Mardsen ou com John Sykes apenas? Ou será com o baterista Tommy Aldridge, ou Cozy Powell? E o Judas Priest? Halford, K.K., Glen, Ian e qualquer baterista, ou só com o Dave Holland, ou seria apenas com Scott Travis? E o Journey, Yes, Europe, Scorpions, Rolling Stones, Megadeth, Annihilator?

Além desse assunto interminável, contamos também com a (boa) vontade dos músicos de toparem essas reuniões. Lemmy morreu recentemente sem ter topado com a reunião da era Fast Eddie e Animal Taylor. O Skid Row virou uma banda de fofoqueiras rancorosas. Os Smiths, leia-se Morrisey e Johnny Marr, jamais aceitaram uma reunião.

Ao longo dos anos, são inúmeras as bandas que se dissolvem, mantém apenas um membro original, 1/3 da banda, mudam todos os integrantes, vem e vão. O que fica disso tudo é sempre, e exclusivamente, a música. Não cabe aqui discutir a qualidade de tal material, apenas que é esse o intuito das bandas: gravar, tocar, ganhar dinheiro, independentemente de quem estiver no palco.   

Para finalizar, ressalto, claro, que algumas formações são marcantes e essas, para os fãs, viram um totem de adoração infinita e indiscutível. 

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Sem cartas na cartola

Ace of Spades foi o primeiro álbum clássico de rock que eu escutei por inteiro. A faixa título, mais Love me like a reptile, We are the Road Crew, Dance e Jailbait tocaram por horas seguidas no meu antigo Aiwa.

Na época, pegava os CDs numa locadora, que hoje não existe mais. Assim, para não “perder o som”, gravei o cd numa fita K7, que hoje também não existe mais.

Com o passar dos anos, a figura do baixista Lemmy Kilmister tornou-se mítica, para mim e todos os outros que o acompanhavam. Falas absurdas, músicas altíssimas, baixo destacado, infindáveis histórias e estórias acerca de sua pessoa, enfim.

Nunca pude ir a um show do Motorhead; problemas de verba, saúde e distância estão na lista de desencontros. No entanto, vejo que agora não irei mesmo, pois acabo de ler sobre a morte de Lemmy. O ex-Hawkind, eterno Motor”rock”head.

Sem lamentos, de forma alguma. Creio que o músico tenha vivido exatamente da maneira que sempre quis, de road de Hendrix à líder de umas das mais carismáticas e fiéis bandas do rock´n´roll.

“How are you gonna live now
Out in the lonely fields
What do you have to give now

I wonder how do you feel”

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Trono e coroa?

Dificilmente exista alguém que delimite tanto uma banda de pop ou rock do que seu vocalista. Ano após ano nos deparamos com inúmeras discussões sobre o assunto e as tais formações A ou B. Bom, eu não fico em cima do muro, e costumo me posicionar sobre o assunto.

Para apimentar o papo, sai agora no Brasil, pela Gutenberg, Os Young, os irmãos que criaram o AC/DC. A estória deixa um pouco de lado a banda em si e foca mais em seu núcleo: Malcon, George e Angus Young.

Claro que isso não apresenta nada de acordo com o que falei sobre os vocalistas de bandas, no entanto, Jesse Fink, o autor do livro, deixa clara a sua opinião: “Bon Scott foi o melhor vocalista do AC/DC e suas letras não podem ser comparadas às atuais. Seu vocal era muito superior ao de Johnson. Ele era incomparável ao vivo. Os discos que ele fez com AC/DC nos anos 70 são os melhores do grupo, embora eu ame o Back in Black. Não sou fã do Brian Johnson e não me desculpo por isso".

Dentre tantos grupos que passaram por mudança de cantores, alguns carregam certa injustiça, com todos os que passaram pelo posto. Neste grupo, podemos colocar o Judas Priest, Journey, Black Sabbath e, claro, AC/DC, entre outros.

Quanto aos australianos, a injustiça esbarra em vários pontos. Um deles é sobre o tempo que Brian Johnson ocupa o posto de vocalista, já são 35 anos!, o suficiente para que tenha uma respeitável relevância na banda. Também acumula 10 discos gravados com o AC/DC e mais de 200 milhões de discos vendidos.

Bom, isso para por aqui. Do lado de Bon Scott, os números são mais modestos, com seis discos, nem 50 milhões de cópias vendidas, um respeitável currículo de confusões, overdoses e bebedeiras, esta ocasionando sua morte, em 1979.

O grande problema é que Bon Scott era daqueles caras carismáticos no palco, com grande presença e entrega incendiária, nos moldes de Angus, ou mais.

Como disse no início, não fico sobre o muro, então digo e corroboro com Fink: Bon foi realmente a voz do grupo australiano, depois eles se firmaram como um grupo coeso e profissional, mas com menos Alta Voltagem.  

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Um poeta que sobe

É difícil mensurar o tamanho de qualquer sentimento. Seja ódio ou dor, paixão ou desalento. No fim das contas, tudo o que sobra não dá conta de nada disso.

O estimado Cazuza costumava dizer coisas muito inteligentes, mas hoje eu só fico com seus heróis, ou os meus. Não morreram de overdose, mas, qual a diferença?, também morreram. E continuarão a morrer, pois é assim que a vida segue, usando da morte como seu adubo, a sua sonda, o sêmen que se espalha nessa constelação, talvez finita, de talentosas vidas virtuosas.

Esta noite adormece, senão mais escura, ao menos mais triste do que as últimas. A sentinela fará o seu papel de velar pelo irmão que se vai, irmão o qual alguns chamavam amigo, outros amor, outros você, outros chamavam moço ou coisa assim.

Nunca conversei com Fernando Brant, mas sinto que ele papeou comigo por ao menos uns quinze e ininterruptos anos. Pois assim são os poetas, conversam conosco mesmo sem nos conhecerem, mesmo reclusos, e dessa forma seguem após suas partidas, seus encontros e..., enfim.

Falando em poeta, Drummond tem em um de seus livros um dos maiores títulos que alguém possa sequer alcançar: sentimento do mundo. Agora eu me pergunto: quando alguém morre, que é esse sentimento?


Agora, nesta noite de pouco brilho, o céu recebeu não uma estrela, mas um planeta. Vá, Fernando Brant, as esquinas do mundo já não bastavam a você.  

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Mundo vago

Não quero aqui falar da morte e de sua consequência, que na verdade nada mais é do que um ciclo redundante. A verdade é que a dona não gosta de escolher, e tal qual um funcionário exemplar, faz o que deve ser feito, o que lhe é incumbido, sem distinguir entre essa é ou não a minha função.
Também fica claro de que a morte é dona de nossa única verdade inata, aquela a qual carregamos como a pedra de Sísifo, sem vitória, sem alcançar o topo.
São os velhos as pessoas mais queridas pela morte, mas isso soa como algo ofensivo e prontamente mentiroso. Leva de caminhão uma centena, pois todos somos iguais perante ela.
No entanto, creio que ultimamente a morte esteja fraca, vazia de literatura, pois desde o último ano, ou um pouco mais, tem levado todos aqueles homens que deram a vida pela palavra, e terminaram seus dias como uma palavra: FULANO DE TAL, DATA, descanse em paz.
Em 2012 foi Autran Dourado, ano passado tivemos Ivan Junqueira, Rubem Alves, Ariano Suassuna e João Ubaldo Ribeiro. E hoje pela manhã, não contente com tamanha companhia, ela decidiu levar dois de uma vez: o uruguaio Eduardo Galeano e o alemão Gunter Grass.
Destes, considero a perda de Galeno como um rombo, uma veia implodida, estraçalhada nesta América mundial. Esse homem escreveu tudo com uma paixão incomum. Criticando, apontando, deleitando ou apenas se apaixonando, tudo com o mesmo peso e teor. Seu livro De pernas pro ar deveria ser distribuído pelas escolas do mundo, assim como Memórias do Fogo. Sim, também Futebol ao sol e à sombra, mas este aos boleiros que trocaram o brilho dos olhos pelo das moedas. Não cito sua obra mais conhecida por total falta de necessidade, ela já virou monumento, criou vida própria.
Escritores são como obras de arte, pertencem ao mundo, acasalam suas canetas com os cadernos de lugares todos, e entregam seus filhos sem remorso, apenas esperando que, se não fizerem boas coisas, ao menos tenham uma vivência digna, sem se furtarem ao dever de manterem-se vivos, falantes.
Hoje o mundo não amanheceu mais triste, apenas um pouco mudo, mas é passageiro. Tocam os tambores e segue o sol.


quarta-feira, 1 de abril de 2015

A sensibilidade desumana.

Parem tudo, corram para suas casas, se escondam, não deem as caras. O Brasil está tomado por menores violentos e insanos, seres que não merecem sequer um olhar, muito menos enviesado. Não passe perto das creches e parquinhos pela cidade, pode ser fuzilado por uma criança que carrega uma bazuca na fralda, napalm no copo de leite, sabre na mochilinha.
Sei que haverá uma voz gritando: mas são apenas crianças!!! Sim, eu responderei. Mas são mesmo crianças que estão sendo condenadas por um sistema sedento em dar respostas, e omisso em procurar soluções. Outros dirão que existem crianças ruins e crianças boas. Que enquanto uma mata, outra é vítima. Uns dirão isso e aquilo, outros aquilo e isso.
O fim desse papo todo é que existe uma parcela da sociedade firme num discurso que diz assim: lugar de gente ruim é na vala, sem direito a nada, nem mesmo ao pensamento. O incrível é que essa mesma sociedade é corruptora dessa infância. É a sociedade que propaga a falta de valores, o apego ao supérfluo, o fim das relações humanas.
Quando alguém planta uma semente do mal numa criança, torna-se tão vil quanto o delinquente a quem tanto ele combate.  
Quando li o romance Cidade de Deus, do carioca Paulo Lins, o que me prendeu na trama foi a humanização dos personagens, principalmente Dadinho e Bene. Embora a violência não seja algo endêmico, segundo alguns críticos da sociedade na qual vivemos querem nos provar o contrário, o atordoante cenário de guerra “cinematizado” pela mídia age como escopo de uma parcela presa aos dogmas da boa família cristã e brasileira.
A pergunta que lambe o chão dos bares, bancos e demais estabelecimentos é: como alguém que mata, rouba e estupra pode ser inocente, pode ser bom? Como alguém tão violento pode ter direitos, como a uma cela imunda e um colchão aos farrapos? Dessa forma, é difícil imaginar que alguém em posse de uma arma possa ser uma pessoa de bom caráter ou índole.
Para responder a essas perguntas, eu preciso voltar ao trecho sobre Paulo Lins, quando disse que a humanização dos personagens foi o que de mais marcante eu li na obra do escritor brasileiro. E vou mais além, lembrando do Corleone de Puzzo, do Rino Zena de Ammaniti, do Pinkie Brown de Greene ou mesmo do Bathgate de Doctorow, todos estes personagens, contraventores, sociopatas, bandidos, todos foram dramaticamente humanizados. Aqui eu abro um parêntese, e pergunto: foram eles humanizados ou são tão reais porque são humanos? Sim, humanos, errantes, donos ou vítimas de suas vidas e escolhas.
Não me parece comum alguém enxergar um ato violento por mais de um ângulo que não seja o da brutalidade, seguido pela ira e acabando na intolerância. Temos, sim, milhões de atos sangrentos, burros e impensados, praticados por pessoas das mais variadas classes e posições sociais. Os ricos, os paupérrimos e os vazios. No entanto, faz-se necessário uma indagação sobre a violência. Uns a enxergam como ato físico, outros morais ou psicológicos, nada de novo. Mas é preciso pensar mais profundamente sobre o ato violento. Quando tiramos o sonho, a vontade, a dúvida, a autonomia, a infância, a inocência, a coragem ou o medo de alguém e os estratificamos como simples manobra de criação, também aí somos violentos, tão brutais quanto aqueles que levantam as armas brancas, as vozes e punhos, cuspindo suas verdades permanentes e solidas como a perene ignorância.
Sendo assim, a recente, e crescente, tentativa de diminuição da maioridade penal no Brasil mostra como uma nação pega tudo aquilo pelo que lutou e coloca num caldeirão onde tudo se mistura: futebol, política, infância, raça, perseverança, direita, esquerda, meio, lado, margem. O resultado é uma sopa insossa e intragável.
 A sociedade é quem cria os seus Dadinhos, Corleones e Bathgates da vida, é a sociedade quem esbofeteia os rostos e cobra uma postura sobre os hematomas. E aqui coloco a sociedade como um todo, não dividindo-a em política e povo. Dessa forma, cada um precisa saber a sua real parcela de culpa na formação deste indivíduo que hoje está sendo tachado pela simples pecha de DiMenor.  
Como disse Durkheim: “não podemos, nem devemos nos dedicar, todos, ao mesmo gênero de vida: temos, segundo nossas aptidões, diferentes funções a preencher, e será nisso que nos coloquemos em harmonia com o trabalho que nos incumbe. Nem todos fomos feitos para refletir; será preciso que haja sempre homens de sensibilidade e homens de ação.”

Mas uma coisa se choca contra as palavras do filosofo francês: se é preciso homens de ação e homens de sensibilidade, infelizmente contamos apenas com a não sensibilidade e com uma ação desmesuradamente covarde, insensata e pétrea. Pétrea como a cláusula que a Comissão de Constituição e Justiça que atropelar para punir o jovem e sua não juventude.  

sábado, 28 de março de 2015

A culpa de ser uma lenda

Acompanhei atentamente ao show de Robert Plant, infelizmente pela TV, que o inglês apresentou hoje aos brasileiros, no festival Lollapalooza. Fato é que venho assistindo às suas apresentações ao longo da turnê, coisa que o youtube, felizmente, permite maravilhosamente.

Quando um artista tem mais de 50 anos de palco e integrou um dos mais contundentes grupos de rock da história, fica difícil contemplar um set suficientemente satisfatório ao publico. Dessa forma, Plant mescla Led com África e carreira solo, mais Willie Dixon e Bukka White, tudo alinhavado com uma classe sobrenatural. 

Após o show, li algumas matérias a respeito do concerto, as quais me incomodaram sobremaneira. Em uma delas, o repórter diz que o excesso de misturas introduzidas por Plant durante o show deixam o ambiente morno; já outra reclama da potência vocal do cantor. Oras, penso comigo, essa mistura funcionou em “todos” os shows da turnê. O senhor vem de uma sequência de concertos e festivias onde desfila pedradas como Tin Pay Valley, Turn it up, Bron-Y-Aur Stomp, Communication Breakdown, e onde jamais deixa a chamar se apagar. Como pode manter a voz cristalina?

Bom, a verdade é que você pode admirar vários Plants. O gritador afinado dos anos 60 ou o homem com 20 pulmões dos anos 70. Também pode escolher entre o senhor empetecado dos anos 80 ou o pacato dos anos 90. Pode ainda se decidir entre o homem que renasceu neste século, ou então o cantor dos Honeydrippers, a lenda que voltou com o Led, que flertou com o country (bobagem, posto que ele sempre usou e abusou do estilo), enfim.

O que parece é que hoje, beirando as sete décadas, Plant é um cantor pleno e maduro, sabedor de seus limites, conhecedor de seu potencial e absolutamente completo, como Sinatra, Bennett ou Aznavour. Justiça seja feita, alguns jornais corroboraram minhas ideias.

Nobody's fault but mine


sábado, 13 de dezembro de 2014

Das coisas do amor

Lançado em 2004, em decorrência dos 90 anos de Lupicínio Rodrigues, Coisas Minhas traz um bom apanhado das composições do gaúcho das cicatrizes amorosas. Dentre tantos nomes - Linda  Batista, Altemar Dutra, Silvio Caldas, Cauby Peixoto, Edith Veiga, e outros, um merece destaque. Não pela música gravada, mas pela figura que representa: Fábio Jr. 
Estranho pensar no cantor das baladas açucaradas cantando algo digno de prestar atenção. Mas, como ocorre muitas vezes, artistas viram o que costumam gravar, apesar da voz, apesar do talento, apesar de. 
Talento, essa é a única palavra com que podemos classificar a gravação de "Nervos de Aço" na voz do paulista. Lá se vão mais de 30 anos, praticamente 40!, desde que Mark Davis caiu na boca do povo. Daí para Fábio Jr. foi coisa rápida. 
Quanto a Lupicínio, este se consagrou descrevendo as dores do amor, o amor que até hoje delimita a carreira de Fábio Jr. 

Assim, temos as duas pontas de um fio único. A tragédia do amor banal e do amor desiludido.    

Vê,somos dois apaixonados,
Dois cigarros apagados,
Dizimados de ilusão(...)

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

O descanso é igual

A morte serve para alinhar as coisas, colocando todos sobre o mesmo patamar, no entanto isso não segue tão bem essa lógica. Assim, um bruto pode tornar-se santo; um santo, homem; e um homem, Deus. São várias as figuras que ganharam ares mitológicos após as suas mortes, tornando-se peças de devoção e culto sem limite. História já batida é sobre a “maldição dos 27”, no rock.
Se por si só o estilo já carrega lendas infindas, essa é apenas mais uma delas, sobre uma suposta praga que matou vários jovens com a mesma idade, vide Hendrix, Joplin, Cobain e Morrison. Superstições a parte, a verdade é que todos eles morreram no auge de suas carreiras, mas mergulhados igualmente no auge de suas fraquezas.
Bom, já que estamos falando de superstições e música, hoje, 8/12, é um dia com ao menos três pontos interessantes. O primeiro é que Jim Morrison, um dos “amaldiçoados”, faria 71 anos; também hoje se completam 34 anos da morte de John Lennon; e 20 anos da partida do maestro do Brasil: Tom Jobim.
Se a morte serve para igualar, ou aparentemente aumentar as coisas, dos três citados, é notório que John e Jim viraram figuras míticas. Depois de todas essas décadas, seus rostos estampam canecas, cadernos, camisetas, caixões. Multidões ainda visitam seus túmulos ou casas, e suas musicas viraram hinos, mesmo que tenham sido feitas apenas para serem músicas. Talvez, hoje eles fossem apenas velhos saudosistas, internados em asilos ou clínicas de dependentes. Lembrariam-se daqueles verdes e enfumaçados anos 70, da lisérgica década anterior. No entanto, morreram, deram uma pausa em suas vidas. Já os fãs, estes têm a mania de reescreverem a história dos ídolos partindo de seu fanatismo, mudando até mesmo o que não viveram, ou o que nunca existiu. Bom, já dizia outro desses ídolos que “o nosso amor a gente inventa”.
Mas e o Tom, onde fica nisso? Ah, o maestro não morreu no auge, posto que lá sempre esteve. Dos três, Tom manteve-se sempre convicto de seu caminho. Partiu já com a vida pavimentada, apesar de que não precisava ainda, não é?
Hoje, na Praia de Ipanema, uma estátua do compositor foi inaugurada. A peça apresenta Tom andando com o violão às costas. Os olhos nada miram, e o passo é firme. Talvez vá tomar um chope com John, uma prosa com Jim.   

A verdade é que hoje, de uma forma ou de outra, o mundo sente falta de uns acordes dos quais nunca teve notícia. Nasce um, vai-se outro, no balanço do Mar.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Os ecos

Escutando o novo som de Mark Ronson, Uptown Funk, fica latente que as marcas de Michael Jackson na música pop contemporânea são indeléveis. Talvez porque o clipe e a música traga Bruno Mars em grande forma, como um Michael ainda dos tempos de Off the Wall, talvez porque Ronson tenha produzido o disco póstumo do ídolo de Gary.

Escutando Uptown Funk, também escutamos Gap Band, e também escutamos Average White Band, e continuamos escutando ecos sem fim de uma época que se perpetua a cada novo acorde, numa cidade que se reinventa como todas as cidades já cansadas de si.

O clipe foi gravado em Nova Iorque, neste ano, mas se acharmos que se passa em fins dos anos 70, fará igual sentido.

E assim é a música, se esgota e se descobre. E o passado, que já parecia roto, ganha uma costura e continua o seu ritmo.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Vão-se os corpos e ficam as consciências

Este dia já começou bem fúnebre, com diversas pessoas de nome partindo para o próximo andar. Assim foram Samuel Klein, Márcio Thomaz Bastos e a Duquesa de Alba, a nada normal María del Rosário. Também partiu o diretor Mike Nichols, mas isso foi ontem, enfim. O fato é que toda essa onda de mortes talvez sirva para não deixar este Dia da Consciência Negra passar batido.

Antes que reclamem, digo que a data não apresenta conscientização alguma, posto que tal ação é fruto de anos e anos de trabalho, e que tal trabalho ainda apresenta sérias sanções e sólidas barreiras. No entanto, já que o assunto é personalidades/morte/consciência negra, nada mais justo do que lembrar da morte, no começo desta semana, do grande Jimmy Ruffin. Para quem não fez a relação, Ruffin foi um dos ótimos nomes que constaram no cast da gravadora Motown, fortaleza da soul music norte americana, e celeiro de dezenas de artistas negros.

Ícone do soul nos anos 1960, principalmente pela gravação de  What Becomes Of The Broken Hearted, em 66, Jimmy só alcançaria o topo novamente no anos 80, quando gravou Hold on to my love.

Irmão mais velho de David Ruffin, que ao lado de Eddie Kendricks formou o duo mais marcante dos The Temptations, Jimmy teve altos e baixos em sua carreira, gravando material que, apesar da expressiva qualidade de sua voz, jamais tiveram o valor e reconhecimento que lhe eram devidos. Uma curiosidade: em 1970, David e Jimmy gravaram um disco juntos intitulado como The Ruffin Brothers: I´m my Brothers Keeper. Reza a lenda que o material serviu para alavancar a carreira de Jimmy, mas isso é história.
Assim, partiu mais uma estrela da Motown Records.

Voltando ao Brasil, e sua, mesmo que obrigada, consciência, solto um trecho de Wake up Everybody, de Harold Melvin and the Blue Notes.

Boas Batidas!

"Wake up everybody no more sleepin' in bed
No more backward thinkin' time for thinkin' ahead
The world has changed so very much
From what it used to be so"



sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Entre nós


Vivemos sempre num constante massacre. Centenas de atrocidades, com vítimas vivas ou não, nos alimentam, nos engasgam ou, para aqueles que não possuem olhos ou nada dentro de seus corpos ou mentes, nos divertem.

O bem e o mal são realmente a mesma força, antípoda, que se anula e se completa? É o que podemos supor com os personagens Dr. Henry Jekyll, e Edward Hyde, a própria descrição do ser humano. Acuado, medroso, feroz, mortal. Quantos são os que assim vivem, que passam por nós a cada dia, durante toda a nossa existência? Espécimes assim só são lembrados quando, por acasos da vida, nos deparamos com algum massacre cometido em lugar qualquer, sem razão qualquer.

Em 1986, na latina Bogotá, Colômbia, em um restaurante italiano, ocorreu um desses massacres: o Massacre de Pozzetto. Campo Elias Delgado, ex combatente no Vietnã, professor de inglês, misantropo, Jekyll&Hyde. Um homem no meio do redemoinho assombroso de personalidade, que lavou de sangue e balas 29 pessoas. Um ser que poderia passar despercebido, como algo banal.

Dezesseis anos depois, em 2002, na mesma Colômbia, o escritor Mario Mendoza lançou Satanás, um livro que fala sobre a diária, profunda e eterna presença do maligno em nossos dias. Mendoza foi amigo de classe de Campo Elias, e foi baseado no massacre que Satanás ganhou forma.

Uma menina possuída, um homem que esfaqueou toda a família, uma jovem estuprada, um padre que fraqueja em sua fé, vidas destruídas. O romance fala de coisas que acontecem todos os dias, exceto, talvez, pela possessão, e que de tanto virarem notícia, acabam se transformando apenas em complemento de um cotidiano esfarelado e nulo de razão.

Não sei até que ponto o mal está infiltrado na sociedade, mas é certo que esta mesma sociedade tem produzido, numa escala frenética, os seus próprios assassinos. Pessoas pacatas, como Hyde, e fatais, como Jekyll. Loucos pregadores, vozes ambulantes, sem corpo ou forma, exterminadores em nome da verdade e da justiça, frustrados ou felizes ao extremo.   

Mendoza é escritor de linguagem limpa, objetiva, extremamente realista. O livro é como um diálogo natural, sem rebusco. Isso faz com que a obra ganhe ainda mais realidade, além daquela que deu origem ao texto. Satanás é apenas um livro, um grande livro, mas é também o nosso dia a dia.  

Entrevista com o autor - portalivros.wordpress.com  

Vídeo sobre o Massacre de Pozzetto. 


domingo, 25 de setembro de 2011

Esperando que algum fato (emocionante) venha ocorrer


A falta de assunto sempre leva ao lugar comum. Agora é o "festival de musica no Rio" que está em voga, e tudo o que acontece durante o dia é deixado pra lá, porque de noite é hora do show. No meio disso estão os roqueiros, uma tribo medieval, onde vivem seres eternamente cegos e surdos, levantando uma bandeira já furada pelo tempo que nunca dorme. "Onde estão os dinossauros?", gritam raivosos, enfurecidos, sentindo a falta de seus deuses que nunca vieram ao seu encontro.

Pelo fato do Rock in Rio 85` ter contado com nomes de peso no cenário rock, ficou esse estigma de festival de rock, somente rock, nada mais do que rock, porque o que importa é o rock e rockrockrockrock. Que o diga Erasmo Carlos e Lobão, artistas com um pé no rock, com os dois e mais um pouco no caso do último, e que foram prontamente detonados em suas apresentações diante da já citada tribo medieval do rock, armada com garrafas, latas e uma imensidão sem conta de palavrões e falta de educação.

Por mais que eu queira ficar distante disso, não consigo, pois todo jornal que vejo, toda pagina que abro, faz alguma alusão aos acontecimentos no Rio de Janeiro; e não são os crimes, que continuam, o pouco caso do poder público, que igualmente continua, mas sim o cansativo, mas não falido – Medina gargalha em frente a sua floresta verdejante – Rock in Rio.

Todo o dia vejo alguém reclamando das bandas, dos discursos, do Rio, da monopolização da Globo sobre tudo isso. Pelo menos concordo com o último item, totalmente. Hoje li que os californianos do Red Hot Chili Peppers usaram uma camiseta com o rosto do garoto Rafael Mascarenhas, filho da atriz Cissa Guimarães, que ontem completaria 20 anos. Isso realmente é um monopólio que não entendo. Mais uma vítima de atropelamento no "país que ama carros", que já recebeu mais homenagens do que o necessário, se é que homenagear um menino morto por atropelamento se faça necessário.

Não é de hoje que pessoas, chamadas de estrelas, apenas por possuírem um alto poder econômico, são elevadas ao status de divinas. Tudo o que ocorre com elas é digno de noticiários, e a bandeira da impunidade logo ganha as ruas. Seres totalmente comuns, assim como eu, viram mártires de um problema que afeta a todos. Caso o garoto Rafael não fosse filho de uma dessas ESTRELAS, não teria virado MÁRTIR. No fim das contas a morte iguala todo mundo e, ao fechar os olhos, a cova conforta todas as caixas de madeira. E é assim que 
Carolina Menezes Cintra Santos, Vítor Gurman, Miriam Baltresca e Bruna Baltresca tornam-se iguais a Rafael Mascarenhas, vítimas do mesmo ato, mas nem todas respaldadas pela mesma sociedade.

Sim, fugi do assunto Rock in Rio, pois isso realmente não tem importância. De tudo o que li até o momento, foi essa demonstração de poder o que mais me chamou a atenção.

E o show vai, e deve, continuar... 

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Qualquer coisa verdadeira

Uma vida de excessos, solitária, apesar da imagem de eterna amizade, muito poder em pouco tempo, tudo ao breve alcance das mãos. A morte não escolhe ninguém, é claro, mas o fato é que pessoas que se encaixam nesses pequenos itens parecem que possuem uma disposição enorme para partirem pro além. Muitas viram ícones, mesmo sem um pingo de talento, outras possuem a dádiva artística correndo nas veias.

A morte de Amy Whinehouse mostra bem isso. Milionária, nova, extremamente talentosa e sozinha. I don't ever want to drink again/I just, ooh, I just need a friend. E foi uma trágica inversão de papéis. Não havia amigos, apenas a bebida e seu fundo poço de vidro, a bebida e seus companheiros consumíveis.

Escrevo isso depois da recente morte de outro músico, Jani Lane, da banda de rock norte americana Warrant. Às vezes penso que o rock é o meio musical onde há mais excessos, mas vejo que não é bem assim. Ray Charles, Marvin Gaye, Billie Holiday, Elis Regina, todos eles passaram por problemas envolvendo drogas e álcool. O que me choca no caso de Jani é de alguns desses que citei é a falta de apoio de pessoas que, em outras horas, sempre os rodeavam. Sei muito bem que viciado é uma pessoa que dificilmente aceita ajuda, seja ela de qualquer pessoa.

Sei também que isso não possui apenas um lado e que uma hora as pessoas simplesmente desistem e tentam seguir as suas vidas da melhor maneira possível, às vezes com o coração pesado, mas com a certeza de que fizeram tudo o que foi necessário.

Bom, falava do rock. Jani não foi o primeiro, tampouco o último astro que entregou os pontos pelo vício que a vida repleta de coisas deslumbrantes pode trazer. Alguns casos semelhantes, como do guitarrista Steve Clark, do Def Leppard, se encaixam perfeitamente nisso. Uma falsa vida de facilidades que encobre o enorme fosso cheio de depressão e infelicidade. Talentos aos montes, jogados na lata do lixo, como roupas que não tem mais serventia alguma. Logo depois aparecem as carpideiras, com suas lágrimas de plástico e lamentações vazias. Os tributos, as acusações, as rusgas, mágoas e o dinheiro, claro. A roldana que faz tudo girar, e até mesmo aqueles que caem ao chão em tremendo desespero, logo sorriem com a possibilidade dos bolsos recheados do “suor da morte”.

Quanto custa manter a imagem de eternamente aéreo, ícone de uma geração que não te conhece, mas que vive como um clone seu? Quanto custa a amizade, se é que possui mesmo um preço...  




sábado, 5 de março de 2011

Teclas de papel

Ex-pugilista, afastado das gravações, em constante luta contra as drogas e o álcool, exímio letrista e criador de excelentes melodias, daquelas que se fixam na cabeça, milionário, talentoso, Billy Joel.

The Book of Joel relata as memórias do cantor e sua extensa carreira, que começou ainda nos anos 60 e explodiu pelas décadas seguintes. Com lançamento programado para o dia 14 de junho nos Estados Unidos, o livro revelará as alegrias e pressões por que passam as grandes estrelas.  Joel não grava um disco desde 2001, o último, intitulado Fantasies & Delusions contem apenas peças para piano.

É com tal instrumento que Joel chegou ao mundo das grandes celebridades, com o disco Piano Man, de 1973. Depois vieram 6 Grammys, mais de 100 milhões de discos vendidos e sucessos do calibre de New York State of Mind, Honesty, Movin´Out (Anthony Song´s), I Go to Extremes e A Matter of Trust. Joel é famoso também pelas suas performances com outro às das teclas, Elton John. Os dois se apresentaram juntos pela primeira vez em 1994.

Se o artista anda afastado dos holofotes e, aparentemente, sem vontade alguma de gravar algo novo, a biografia vai servir para afirmar a genialidade de Bily Joel, que não precisa mais provar nada. O livro foi escrito em parceria com o jornalista  Fred Schruers.  

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

O ciclo das águas...chega ao fim

Geralmente a pergunta "o que é clássico" aparece em conversas de bares, pontos de ônibus, filas das mais variadas espécies e tantas outras situações. Bem, não estou aqui pra discutir isso, e mesmo que estivesse não sairia muita coisa, pois isso é assunto inesgotável e suscetível a mil respostas, certas ou não.
Enfim, o fato é que na madrugada de domingo o bom escritor gaúcho Moacyr Scliar veio a falecer. E me lembrei desse negócio chato de clássico porque, mais de uma vez, já me vi envolvido no meio de conversas onde se discutia a suposta classe do escritor. 
O negócio é o seguinte, Scliar foi um excelente cronista e contista, ponto. Se foi clássico eu não sei, mas sei que foi um dos escritores que mais li e admirei na minha adolescência,e por isso já tem um grande valor pra mim. Sei que não terá substituto, tampouco sua vasta obra reeditada, mas, para quem quiser manter, pelo menos, o seu nome vivo, então vá a qualquer biblioteca e pegue um dos seus bons romances ou, quem sabe, os agradáveis contos. 
Faço aqui uma analogia com uma de suas crônicas: O Vencedor, Uma Visão Alternativa. Um homem estava sendo violentamente surrado no ringue quando, de repente, surge a figura de sua sobrinha. A imagem faz com que o homem encontre forças para levantar e destruir o adversário. Todos aplaudiram, menos o perdedor, aquele que narra a breve crônica. Assim foi Scliar, anos e anos nos ringues da literatura, aplaudido e, no fim, derrotado. Acaba assim mesmo, alças prateadas, tampo de mogno e o nome eternizado. O Brasil perdeu um grande escritor.   

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

A volta do Cars... e do Batida Sonora

Vinte a quatro anos de pausa e um integrante a menos. Sucessos na Mainstream Rock, Adult Contemporary e The Billboard Hot 100. Um hit tocado pelo menos umas cem vezes por dia em algum país deste planeta. E agora estão de volta. Estou falando do The Cars, banda norte americana capitaneada por Rick Ocasek e Benjamim Orr , que faleceu em 2000.O último disco da banda foi "Door to Door", de 1987.   
O grupo anunciou para maio o lançamento de um álbum de inéditas, "Move Like This", e para março o lançamento do single Sad Song. A página da banda no Facebook sempre trás novidades. 
Assim como o The Cars o Batida Sonora também está voltando.
Boas Batidas, com The Cars! 



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